Por uma agenda ambiental contemporânea maranhense

Autora: Alexssandra Maura Bernal, Educadora Ambiental, Bióloga, MSc. em Sustentabilidade; associada fundadora do Instituto Maranhão Sustentável.





Começar a escrever sobre meu Estado, não é fácil. Nunca sei por onde começar. A paixão e a certeza de que vivo no lugar mais bonito, rico e biodiverso da federação, me deixa de “queixo caído”, tal como de lágrimas nos olhos, quando descubro que o processo de formação de seus municípios teve como único objetivo a extração de riquezas para o abastecimento de metrópoles, caracterizando-se fortemente por uma atividade primário-exportadora e que, à medida que a demanda externa aumentava e se dinamizava/diversificava, novas frentes de exploração surgiam.


Cidades que se interligam para propiciar o escoamento das produções. Mas, que produções são essas? Como são implantados esses cultivos? Onde? Para quem são direcionados? Algodão? Açúcar? Arroz? Carne? Leite e derivados? Soja?


Percebo que os aglomerados urbanos surgem beneficiados pelos rios e estradas e que, a implantação de projetos industriais, especialmente os minero-metalúrgicos e madeireiros, não consideram os graves danos ao ambiente com a devastação de florestas, poluição dos recursos hídricos, do ar, além da desarticulação do modo de vida das populações nativas, pauperizando-as ainda mais.


Em plena era espacial, com a implantação do Centro Espacial de Alcântara, a população local continua sujeita a perda de territórios, identidade, subdesenvolvimento. O mundo está de olho nessa localização privilegiada. O mundo.


Temos uma ferrovia de ligação com um dos ricos setores do subsolo amazônico – Carajás, recebemos grandes indústrias e estamos ameaçados de ver novamente passar o trem da história. Aliás, com a implantação da Ferrovia Carajás – Ponta da Madeira, diga-se de passagem, uma onda de devastação, semelhante a um rastilho de pólvora se fez, de cada lado da estrada, 3 a 8 km de matas derrubadas, com rápida expansão sobretudo em trechos mais planos do planalto.


Do outro lado, temos o processo de grilagem, a ocupação desenfreada e a derrubada indiscriminada de floresta pré-amazônica para a implantação da pecuária, o que resultou em graves problemas ecológicos, como imensas voçorocas, desmatamento de matas ciliares e assoreamento dos rios.


A expansão da indústria madeireira trouxe graves impactos ao ambiente uma vez que o abastecimento da mesma é feito de forma indiscriminada, não havendo nenhuma ação efetiva de preservação de espécies e de reflorestamento.


É notório que existem sinais de evidente esgotamento florestal em uma imensa área do Estado compreendida, dentre outros, pelos municípios de Açailândia, Bom Jardim, Imperatriz e Santa Luzia, com o abastecimento das grandes serrarias, sendo realizado por florestas localizadas a mais de 220 km destas, já provocando significativas alterações na cobertura florestal de outros municípios como Carutapera, Godofredo Viana e Turiaçu.


Ao longo da BR 316, ainda falando da Pré-Amazônia Maranhense, se desenvolveu a maior experiência de assentamento de pequenos produtores conduzida pelo setor público no Nordeste. No entanto, onde só existia mata e deveriam existir pequenos produtores, hoje tem-se um dos maiores centros de produção agrícola e pecuária do Estado, com um grande número de aglomerados urbanos, incluindo-se entre eles, Zé Doca e Santa Luzia do Paruá.

Quando as rodovias passam a integrar o Maranhão ao Nordeste e ao Centro-Sul do país, modifica-se o perfil dos transportes, reduzindo-se uma diversificação dos centros de comercialização e diminuindo a importância da utilização da via marítima nas exportações e importações estaduais.


A expansão do sistema rodoviário contribuiu diretamente para o crescimento econômico da região central do Estado, onde os núcleos de Bacabal e Pedreiras foram reforçados pela frente pioneira que se abria, como grandes prestadores de serviços, com poderes irradiados sobre outras áreas como Vitorino Freire, Esperantinópolis e Lago da Pedra, que por se acharem marginalizadas, em relação às vias de acesso, permanecem estacionadas como simples centros de produção primária.


A ocupação que se dirige no sentido oeste maranhense, tendo como ponto de propulsão a rodovia Belém-Brasília, fez despontar, num crescimento explosivo, Imperatriz, que, no entanto, mantem os defeitos observados na formação de todos os demais núcleos do Estado – a espontaneidade e a desorganização no seu crescimento, assim como Santa Inês, Bom Jardim e Santa Luzia. A partir da abertura das estradas estaduais inicia-se um franco processo de retirada de madeira também nestas regiões.


Muito prazer! Eu sou o Maranhão do século XX, décadas de 20 a 90. Qualquer semelhança com os dias atuais, não é mera coincidência!


Em 1991, início da década de 90, véspera da Conferencia Mundial mais importante para os Humanos – a ECO-92. Num esforço conjunto, diversas instituições, conjuntamente ou isoladamente, buscam conhecer seus ambientes, medir seus níveis de saúde e degradação, para apresentarem-se, de alguma forma, na dita Conferência.


No Maranhão, a Secretaria de Estado do Meio Ambiente e Turismo, publica o “Diagnóstico dos Principais Problemas Ambientais do Estado do Maranhão”, tendo como equipe técnica docentes das Universidades Federal e Estadual desse Estado. Todo o texto acima foi construído com trechos retirados desse documento. E ainda há muito a retirar dali. Para cada parágrafo deste texto é possível fazer perguntas, comparar com os dias atuais, refletir sobre a direção das políticas de governo que vinham/vêm sendo tomadas.


O que foi diagnosticado, às portas do século XXI é o que vemos ainda hoje?


Podemos identificar uma crescente degradação ambiental, ocasionada por ocupações desordenadas e por políticas econômicas que depreciam as qualidades, os pontos fortes do Estado, erosão acelerada em função do manejo agrário inadequado ou de desmatamentos descontrolados, construções humanas sem planejamento, sem respeito aos espaços naturais e aos humanos que ali viviam/vivem, concentração em centros urbanos, com consequente esvaziamento das zonas rurais dos municípios.


E notem que não falamos sobre as 13 bacias hidrográficas, os campus inundáveis, a zona costeira, clima, solo, fauna. Ainda há muito a falar!


Então, alguma semelhança mais com o Maranhão de hoje? É possível interferir nessa dinâmica? Quem terá coragem e responsabilidade para isso?



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